O Tribunal
dos Espelhos
Em que a verdade é reescrita nove vezes
até que a nona sirva ao propósito
"Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado."
George Orwell — 1984
O Tribunal Supremo de Granvia havia sido construído, no século anterior, por um arquiteto que entendia o poder melhor do que a maioria dos que iriam habitá-lo. O salão principal tinha vinte e dois metros de pé-direito, revestimento de mármore branco nas paredes e no piso, e uma acústica projetada para que qualquer voz pronunciada da tribuna central chegasse a todos os cantos com a mesma clareza implacável. Era um espaço que amplificava. Não apenas o som — amplificava a assimetria. Cada detalhe arquitetônico havia sido calculado para produzir no visitante a sensação de que a instituição era maior, mais permanente e mais inevitável do que qualquer pessoa que ela julgasse.
O Ministro Alves Motta havia aprendido a usar esse espaço como instrumento antes de aprender a usá-lo como tribunal. Havia estudado como a geometria afeta a psicologia de depoentes — como a altura da cadeira, a distância da mesa, o ângulo da iluminação transformam um homem confiante num homem que responde antes de terminar de pensar. Era uma ciência que os manuais jurídicos não ensinavam abertamente mas que os práticos do poder transmitiam de geração em geração.
Motta tinha sessenta e um anos, cabelos completamente brancos que usava com o cuidado de quem sabe que a aparência de sabedoria é metade da autoridade, e um estilo de interrogatório que seus admiradores chamavam de socrático e seus adversários chamavam de outra coisa que não cabe em transcrição oficial.
O Coronel Teodoro Fontes havia sido, durante doze anos, o oficial de inteligência mais próximo do General Rodrigo Veras. Era, no vocabulário do Tribunal, uma testemunha de valor excepcional — o tipo de testemunho que pode construir ou demolir um caso, a depender do que a testemunha diz e, mais importante ainda, do que a testemunha acredita que vai acontecer com ela depois de dizer.
Fontes havia sido convocado pela primeira vez em março. Chegou com advogado, com a postura erguida dos militares, e com uma versão dos fatos que havia preparado com o cuidado de quem sabe que cada palavra em sessão gravada é uma pedra que pode ser usada para construir ou para atirar.
A primeira versão durou até a primeira pausa.
O que acontecia nas pausas não era transcrito. O Ministro Motta tinha um gabinete adjacente ao salão principal, separado por uma porta de carvalho maciço que abafava o som com a eficiência de um material escolhido para esse fim específico, e era naquele gabinete que as conversas de pausa aconteciam. O advogado de Fontes não era convidado para as pausas. O Coronel Fontes voltava dezoito minutos depois com uma expressão que o advogado descreveu internamente como "o rosto de quem foi mostrado algo que não queria ver."
O processo completo — da primeira convocação à versão final aceita pelo Tribunal — levou sete meses e nove sessões.
Entre a primeira e a nona versão havia um abismo que o direito processual de Granvia, em condições normais, não permitiria transpor. Uma testemunha que contradiz a si mesma oito vezes em sete meses não é, na doutrina que os estudantes aprendem nos primeiros anos de faculdade, uma testemunha confiável. O que os estudantes não aprendem nunca — é que a doutrina é aplicada pelos que têm poder de aplicá-la, e que esse poder inclui o poder de não aplicá-la quando não for conveniente.
O Ministro Motta recebeu a nona versão, leu, fez três perguntas de confirmação com a voz tranquila dos que já sabem a resposta antes de perguntar, e declarou o depoimento encerrado. O Coronel Fontes saiu pela porta lateral — curvado de uma forma que não era física, ou não era apenas física. O advogado tentou falar com ele no corredor. Fontes não respondeu. Caminhou até o carro, entrou, fechou a porta.
Lívia Veras recebeu a convocação numa quinta-feira, por escrito, em papel timbrado do Tribunal Supremo com a assinatura do Ministro Alves Motta impressa com a firmeza de uma declaração de propriedade. Não era uma intimação formal — o vocabulário jurídico de Granvia distinguia com precisão entre intimação, convocação e convite, e o documento usava a palavra convocação, que ficava exatamente no meio do espectro: mais do que um convite que se pode recusar, menos do que uma intimação que obriga comparecimento com advogado.
Lívia foi com advogado. Era uma mulher que havia aprendido que a linguagem dos sinais importa tanto quanto a linguagem das palavras.
A sala para a qual foi conduzida era pequena — baixa, fechada, sem janelas, com uma mesa retangular no centro e duas cadeiras de um lado e uma do outro. O Ministro estava sentado na cadeira única quando ela entrou. Não se levantou. Não estendeu a mão. Havia uma xícara de café à sua frente — para ele, não para os visitantes — e uma pasta fechada sobre a mesa cujo conteúdo ela não podia ver mas cuja presença comunicava algo: tenho material. Você não sabe quanto.
— Dona Lívia — disse o Ministro, com a familiaridade de primeiro nome que não havia sido autorizada. — Obrigado por vir.
Como se houvesse alternativa, pensou ela. Disse nada.
— Você sabe por que está aqui.
Era uma afirmação, não uma pergunta. Técnica antiga: retirar da pessoa a possibilidade de definir o que está acontecendo.
— Vim a convite do Ministro — disse ela, devolvendo a formalidade que ele havia abandonado. — Meu advogado gostaria de entender o âmbito desta conversa antes de prosseguirmos.
O Ministro olhou para o advogado com a expressão de quem encontra um móvel num corredor.
— Isso não é uma sessão formal. É uma conversa. — Pausa calculada. — Entre pessoas que se preocupam com o futuro de Granvia.
O que foi dito naquela sala, durante os cinquenta e sete minutos que se seguiram, nunca seria confirmado por nenhuma das partes. O advogado tomou notas — incompletas, porque em certo momento o Ministro havia sugerido, com a suavidade de uma recomendação que não era recomendação, que algumas conversas eram mais produtivas sem registro.
O que as notas do advogado registravam, nas margens e entre linhas, era uma geometria de pressão que operava em três vetores simultâneos. O primeiro era o marido: o processo avançaria ou não avançaria dependendo de certas colaborações. O segundo era ela mesma: havia investigações em andamento que incluíam o nome dela. O terceiro era o mais delicado e o mais antigo dos instrumentos do poder sobre qualquer pessoa que tenha pessoas que ama: havia filhos. Havia filhos adultos com carreiras, com contratos, com licenças profissionais emitidas por órgãos que reportavam a estruturas que o Tribunal tocava.
Nada disso foi dito explicitamente. Tudo foi dito completamente.
A ameaça perfeita existe apenas na compreensão de quem a recebe,
sem nunca ter existido na boca de quem a emitiu.
Ao fim dos cinquenta e sete minutos, o Ministro fechou a pasta — que nunca havia sido aberta — levantou-se, e disse:
— Foi um prazer, Dona Lívia. Granvia precisa de mulheres com sua serenidade.
Ela não respondeu. Saiu pela mesma porta por onde havia entrado. No corredor, caminhou até uma janela estreita que dava para o pátio interno do Tribunal. No centro havia uma estátua da Justiça: vendada, com a balança em equilíbrio e a espada na mão direita.
Lívia olhou para a estátua com a atenção de quem encontra num objeto antigo algo que nunca havia notado antes. A venda. A balança. A espada.
Olhando agora para a estátua do pátio, ela pensou outra coisa: que a venda não impedia de ver. Que quem segurava a venda sabia muito bem o que estava abaixo dela. E que a espada, naquela mão daquela estátua naquele tribunal, tinha um dono muito específico que não era cego, não era imparcial, e que havia passado cinquenta e sete minutos comunicando, com a precisão de um cirurgião, exatamente aonde aquela espada poderia chegar.
— Vamos — disse ela ao advogado, sem tirar os olhos da estátua por mais um segundo.
E foram.