O General e o
Trono de Vidro
Em que um homem comum chega ao poder
e o poder finge não ter medo dele
"A suprema arte da guerra é subjugar o inimigo sem lutar."
Sun Tzu — A Arte da Guerra
Granvia não era um país que costumava se surpreender com seus próprios líderes. Havia uma ordem natural nas coisas: os filhos dos que governaram governariam, os que frequentaram os salões certos seriam ungidos nos momentos certos, e o povo — aquele povo imenso, barulhento e mal-alimentado que habitava o interior do país e as periferias das cidades grandes — assistiria de longe, como sempre havia assistido, ao espetáculo da República funcionando para outros.
Por isso, quando o General Rodrigo Veras venceu a eleição, ninguém nas classes dirigentes dormiu bem naquela noite. Não por medo dele — ao menos era isso que diziam uns aos outros nos grupos privados, nas reuniões de clube, nos jantares onde o vinho custava mais do que o salário mensal de um servidor público. Por medo, diziam, seria exagero. Era apenas... precaução.
Veras não era um deles. Este era o problema fundamental, o único que importava, embora ninguém o enunciasse com essa clareza. Ele havia servido nas fronteiras quando os filhos deles estudavam em Genebra. Havia comido rancho quando eles inauguravam restaurantes. Tinha callus nas mãos — mãos que apertavam as de qualquer um, do lixeiro ao bispo, com a mesma firmeza indiferente ao protocolo que tanto perturbava os cerimonialistas do Palácio.
A primeira reunião aconteceu antes mesmo da posse. Não em Granvília — a capital formal, com seus mármores e suas fontes e suas estátuas de fundadores esquecidos — mas num chalé nas montanhas do Sul, propriedade de um advogado que nunca havia perdido uma causa relevante para o Estado em vinte e três anos de prática. Eram oito pessoas na sala. Todas tinham algo a perder. E todas estavam de acordo num ponto essencial: Veras não poderia governar de verdade.
— Não é uma questão de antipatia — disse o mais velho deles, um homem de cabelos brancos que controlava o maior partido de oposição com a serenidade de quem maneja um instrumento muito bem afinado. — É uma questão de... calibração. Os instrumentos da República foram construídos ao longo de décadas. Eles funcionam de uma certa maneira. Um homem que não conhece esses instrumentos pode... danificá-los sem querer.
Ninguém perguntou o que acontecia a um homem que danificava os instrumentos. Todos já sabiam.
O Trono de Granvia era, na tradição oral do país, descrito como feito de ouro. As pinturas históricas o mostravam assim: dourado, pesado, incrustado de símbolos da soberania nacional. O que os livros não diziam — e o que Veras aprenderia nos meses seguintes — era que o trono real era de vidro. Transparente por cima, frágil por dentro, e cercado por um chão onde cada passo errado produzia um estilhaço audível em todos os salões do poder.
O Ernesto Cardoso foi o primeiro a chegar com flores. Era o Conselheiro — como todos o chamavam, embora ele jamais tivesse exercido cargo que justificasse o título — o homem que havia sobrevivido a seis presidentes, três escândalos, dois inquéritos e uma CPI que misteriosamente nunca chegou ao seu nome. Chegou com flores, com sorrisos, com a familiaridade de quem já conhecia o Palácio melhor do que os próprios guardas.
— General — disse ele, apertando a mão de Veras com as duas mãos, gesto que Veras reconheceu das tropas como sinal de quem quer demonstrar que não está armado. — Granvia nunca precisou tanto de um homem como o senhor.
Veras sorriu. Era um homem direto, e a direteza tem seus preços: ela torna os homens otimistas sobre a lealdade dos outros.
Nos primeiros cem dias, o General governou. Assinou decretos, nomeou ministros, abriu fronteiras comerciais que estavam fechadas há uma geração por acordos que beneficiavam meia dúzia de famílias. O povo — aquele povo imenso que havia votado nele com a urgência de quem bate numa porta esperando que do outro lado haja alguém de verdade — foi às ruas comemorar. Não com a frieza dos comícios organizados, mas com a espontaneidade que envergonha os analistas políticos porque não cabe em nenhuma categoria.
Nas montanhas do Sul, o advogado de cabelos brancos convocou uma segunda reunião. Desta vez eram onze pessoas na sala.
— Ele está funcionando — disse alguém.
— Por enquanto — respondeu o Conselheiro, que havia sido convidado desta vez. E havia aceitado.
O que distingue um trono de ouro de um trono de vidro não é a aparência. É o som. O de ouro ressoa quando você senta. O de vidro estala, quase imperceptivelmente, toda vez que alguém do lado de fora decide que chegou a hora de apertar.
Veras ainda não ouvia o estalo. Mas o Conselheiro ouvia. E sorria.