Os Cordeiros
com Dentes
Em que os aliados se apresentam
e a lealdade revela seu verdadeiro preço
"Os homens comprados pelo dinheiro, e não pela grandeza d'alma e pelo amor à glória, são bons para pouca coisa; e é difícil conservá-los, porque não se pode comprá-los duas vezes pelo mesmo preço."
Nicolau Maquiavel — O Príncipe
Havia uma palavra em Granvia que as pessoas de bem usavam para descrever certos políticos sem precisar dizer o que de fato pensavam deles. A palavra era pragmático. Um pragmático não traía — ele se adaptava. Não mentia — ele calibrava a mensagem. Não negociava com o adversário às costas do aliado — ele exercia a complexa arte da governabilidade. O pragmático era, em suma, o homem que fazia o que qualquer outro faria, mas com uma narrativa suficientemente sofisticada para que ninguém pudesse apontar o exato momento em que a lealdade havia virado outra coisa.
Ernesto Cardoso era o pragmático perfeito. Tão perfeito que havia chegado a um ponto raro na carreira dos homens dúplices: ele próprio já não sabia distinguir onde terminava a convicção e onde começava o cálculo. Era uma forma de paz interior que Maquiavel teria admirado e Orwell teria reconhecido imediatamente.
O partido que havia eleito Veras chamava-se, com a pompa grandiosa que os partidos de Granvia costumavam reservar para si mesmos, Movimento pela Restauração Nacional. Na prática, todos o chamavam apenas de O Movimento — como se a definição do que ele era pudesse esperar enquanto a urgência do que ele fazia não podia. E o Movimento era, no dia seguinte à eleição do General, o objeto de desejo mais valioso da República: qualquer um que o controlasse controlaria o próximo passo da história do país.
Cardoso o sabia. Havia sabido antes mesmo da contagem final dos votos. Por isso havia chegado com flores.
Nos três meses que se seguiram à posse, o Conselheiro trabalhou com a paciência dos geólogos — aqueles homens que estudam processos que levam milênios e nunca perdem a calma porque sabem que o tempo é deles. Instalou assessores. Indicou nomes para diretórios estaduais. Fez telefonemas às onze da noite para caciques regionais que haviam apoiado Veras e que agora, com o General no poder, precisavam de alguém que soubesse traduzir o idioma do Palácio para o idioma das prefeituras. Cardoso era fluente nos dois. Era fluente em todos.
Dalva Assunção havia sido eleita com votos que não eram dela. Isso não era incomum em Granvia — poucos políticos acumulavam votos genuinamente próprios, a maioria surfava ondas que outros haviam gerado. Mas o caso de Dalva era particular porque ela sabia disso com uma clareza que a maioria dos surfistas preferia não ter: ela havia chegado ao parlamento no rastro exato do General, carregada pela mesma maré que havia varrido velhas estruturas e depositado rostos novos nas cadeiras do poder.
O eleitorado que a havia elegido era o mesmo que saía às ruas com bandeiras verdes e amarelas, que rezava novenas pela família de Veras, que acreditava — com aquela fé densa e perigosa dos que nunca foram ouvidos e finalmente encontraram uma voz — que desta vez seria diferente. Eram pessoas que viviam longe dos salões e perto das igrejas, que desconfiavam dos juízes e confiavam nos pastores, que entendiam a corrupção não como abstração sistêmica mas como roubo concreto do que era deles.
Para esses eleitores, Dalva Assunção havia se apresentado como uma deles.
A primeira votação problemática aconteceu no quinto mês do governo Veras. Uma matéria sobre controle de mídia — tecnicamente complexa, politicamente clara — dividia o parlamento exatamente no ponto onde os aliados deveriam votar juntos. Dalva votou do outro lado. Não com estrépito, não com discurso de palanque, mas com aquela discrição calculada de quem aprendeu que a melhor traição é a que não faz barulho suficiente para ser chamada pelo nome.
Quando eleitores foram às suas redes sociais perguntar, encontraram algo que não haviam encontrado antes: os comentários estavam desativados. Não naquela publicação específica — em todas. Nas fotos de família, nas transmissões ao vivo de cultos ecumênicos, nos vídeos patrióticos que ela ainda publicava com a regularidade de quem mantém uma fachada porque sabe que a fachada ainda tem valor.
Uma seguidora antiga — mulher de sessenta e dois anos, professora aposentada do interior que havia batido de porta em porta pedindo votos para Dalva — escreveu numa plataforma paralela: "Não entendo. A deputada desativou os comentários. Como a gente fala com ela agora?"
A resposta, que ninguém deu à professora mas que Cardoso poderia ter formulado com precisão clínica, era simples: não se fala. Essa era a arquitetura. O eleitor serve para eleger. Depois disso, sua função comunicativa encerra-se.
O segundo telefonema de Cardoso para o lado oposto aconteceu numa terça-feira de julho, às vinte e duas horas e quarenta minutos. Ele estava num restaurante discreto no centro de Granvília — o tipo de lugar que não aparece em guias turísticos porque seus frequentadores pagam exatamente para que não apareça. Do outro lado da linha estava um assessor do Ministério da Justiça do governo adversário, que havia chegado ao poder derrotando Veras na eleição anterior.
A conversa durou onze minutos. Cardoso falou durante três deles. Ouviu durante oito. Quando desligou, pediu a conta e deixou uma gorjeta generosa — hábito de homem que sabe que os garçons têm memória longa e é melhor que essa memória seja positiva.
Ninguém soube o conteúdo daquela conversa. O que se observou, nas semanas seguintes, foi que três medidas do governo Veras que haviam encontrado resistência estranha dentro do próprio Movimento — resistência sem rosto, sem votação formal, sem oposição declarada, apenas aquela lentidão burocrática que afoga iniciativas sem que ninguém precise assumir a responsabilidade de afogá-las — essa resistência simplesmente cessou. As medidas passaram. Veras comemorou. Cardoso sorriu.
Havia um provérbio nas forças militares de Granvia que Veras havia aprendido aos vinte e três anos, na fronteira norte, de um sargento que havia sobrevivido a duas guerras e à paz que se segue às guerras — que, segundo ele, era sempre a mais perigosa das três condições:
"O inimigo que vem pela frente você vê. O que vem pelo flanco você ouve. O que vem por dentro — esse você só descobre quando já é tarde para fazer outra coisa senão contar os danos."
O General havia memorizado o provérbio. Havia ensinado o provérbio. Havia citado o provérbio em dois discursos públicos no primeiro ano de mandato, como exemplo da sabedoria que as tropas acumulam e os civis ignoram.
O que ele não havia feito — o que nenhum homem de ação direta consegue fazer com facilidade suficiente — era aplicar o provérbio a si mesmo. Porque para isso seria necessário suspeitar dos que sorriam. E Veras, filho de interior, criado numa cultura onde a deslealdade era a pior das ofensas imagináveis, simplesmente não havia desenvolvido o músculo da suspeita preventiva. Era uma virtude que havia se tornado uma vulnerabilidade. E as vulnerabilidades, em Granvia, eram detectadas com uma velocidade que beirava o sobrenatural.
Na reunião de setembro, o chalé das montanhas recebeu dezesseis pessoas. O advogado de cabelos brancos não precisou mais abrir a fala com eufemismos sobre instrumentos da República e calibrações necessárias. O vocabulário havia evoluído para algo mais direto, embora ainda protegido pelo verniz da formalidade jurídica que todos naquele círculo haviam aprendido a usar como escudo e como espada.
Cardoso estava sentado à direita da cabeceira. Não na cabeceira — ele nunca ocupava a cabeceira, porque a cabeceira pertence a quem tem algo a perder, e Cardoso havia construído uma vida inteira em torno do princípio de nunca ter nada a perder formalmente. Mas à direita. Sempre à direita.
— O Movimento ainda é dele — disse alguém, com a impaciência de quem enuncia um problema.
— O Movimento — respondeu Cardoso, com a serenidade de quem enuncia uma solução — é do povo que o compõe. E o povo que o compõe precisa de liderança. Especialmente em momentos de... turbulência.
Houve um silêncio. O tipo de silêncio que não é ausência de comunicação, mas comunicação em sua forma mais concentrada.
— Que tipo de turbulência? — perguntou o mais jovem da sala, um deputado recém-eleito que ainda não havia aprendido que certas perguntas não se fazem em voz alta.
Cardoso olhou para ele com a expressão benevolente de um professor diante de um aluno que chegará longe se aprender a calar na hora certa.
— A que vier — disse ele. — Estamos preparados para a que vier.
O cordeiro, na simbologia pastoril de Granvia, era animal de duas naturezas. Na frente dos pastores: manso, dócil, guiável. Na ausência deles: capaz de destruir uma plantação inteira com uma eficiência que os agricultores descreviam, com certo respeito involuntário, como sistemática.
O problema do General era que ele havia passado a vida inteira entre soldados. E os soldados, ao contrário dos pastores, não conhecem cordeiros.